Review Watch Dogs: Legion – Onde o cara comum pode fazer a diferença

Jogamos Watch Dogs: Legion, game que coloca o jogador numa Londres sitiada, decadente e autoritária

Marcelo Jabulas | @mjabulas – Quando o primeiro episódio de Watch Dogs estreou em 2014 a história tinha como amálgama a capacidade de o jogador ser capaz de raquear telefones e dispositivos eletrônicos. Naquela época se vivia a consolidação dos smartphones e os primeiro passos do IOT, sigla em inglês para Internet das Coisas, o que fazia a trama muito pertinente e assustadora.

Hoje, o IOT é uma realidade, televisores se conectam à geladeira e lâmpadas, assim como aparelhos de ar-condicionado podem ser acionados a distância por um comando de voz ao telefone. Há inclusive sequestros virtuais de eletrodomésticos. Verdade, há quem se especializou em bloquear os equipamentos da casa dos outros e cobrar um resgate para devolver o controle ao dono. Coisas da modernidade, literalmente.

Tudo isso é apenas para ilustrar que os produtores da série precisaram ir além. Watch Dogs: Legion chegou há uma semana e coloca o jogador numa Londres futurista e caótica. O game se passa anos à frente do nosso. A capital inglesa vive em uma contínua tensão.

Ela é controlada por uma empresa de segurança que tenta conter uma onda de crimes, após uma série de atentados promovidos por um grupo terrorista. Mas a culpa caiu na conta da DedSec, grupo de hackers ativista, em que o jogador é integrante.

A partir daí, o jogador precisa restabelecer sua organização, conter o grupo terrorista Zero Day, além de derrubar a empresa de vigilância Albion, que viola os direitos civis dos londrinos sob argumento da necessidade de manter a ordem.

O game se passa por volta da década de 2030, num cenário em que drones de vigilância, carros autônomos e scanners de checagem de identidade são triviais. Pode parecer um tanto obscuro, mas o game pode ser considerado como uma espécie de oráculo para o mundo real cada vez mais conectado e com discursos autoritários.

James Bond

A primeira missão do game coloca o jogador na pele de Dalton Wolfe, um agente garboso de terno bem cortado, muitos equipamentos que inicia o game atravessando o Tâmisa numa lancha. Só faltou ter uma Walther PP sob o paletó e uma garrafa Bollinger no balde de gelo.

Dalton dá as primeiras instruções de jogabilidade. Sua fase é um tutorial, mas é responsável por explicar a história. O agente não consegue sair vivo da missão inicial. Seu papel era apenas introduzir o jogador na trama e desenhar a necessidade de reconstrução do DedSec com cidadãos comuns e não super espiões.

Recrutamento

Nesse game não há um grande herói e sim um grupo de pessoas que tentam livrar Londres da opressão da Albion e dos ataques do Zero Day. O jogador precisa escolher um personagem para iniciar o jogo. São pessoas comuns. A partir daí é preciso ampliar o time.

E uma das tarefas do jogador é recrutar novos agentes para a DedSec. Para isso, basta utilizar seu telefone para espiar os transeuntes. Profissão, posicionamento político, dados de saúde, patrimônio são informações que podem ser obtidas antes da abordagem. Muitas vezes será necessário recrutar cidadãos com habilidades específicas para determinadas tarefas.

Mas não basta apertar um botãozinho. Para levar um estranho para seu lado é preciso dar algo em troca. Cada recrutado delega ao jogador uma tarefa. São missões de baixa complexidade, como recuperar item, liquidar um agiota, apagar um registro.

São tarefas que podem ser facilmente executadas quando se controla um agente bem equipado. Mas a graça é tentar finalizá-las com as mãos limpas, o que torna o jogo mais desafiador.

Bola de neve

O fato de poder recrutar incontáveis agentes acaba criando uma bola de neve de tarefas. Muitas delas são legais de cumprir. Outras são cansativas e repetitivas. Mas fique atento. O game conta com um modo em que o agente quando abatido é eliminado definitivamente da campanha. Assim, se todos seus agentes morrerem o game termina.

Então, a dica é sempre manter seu “banco de currículos” atualizado, pois se sobrar só um agente sem experiência e nem equipamento, será difícil conseguir recrutar novos integrantes.

Visual

O game tem qualidade visual espetacular, com níveis de detalhamento muito refinados. Os efeitos de transição do tempo, sombras e luzes são muito legais. Muitas vezes esse esmero passa despercebido no calor do game.

Guia turístico

Mais uma vez a Ubisoft caprichou na construção do cenário. Assim como já tinha feito na Nova York de The Division e na Washington de The Division 2, o mapa de Londres é milimetricamente preciso. Big Ben, Abadia de Westminster, Palácio de Buckingham e London Eye (a roda gigante às margens do Tâmisa) estão lá, impecáveis e perfeitos.

É possível ficar horas apenas perambulando pela cidade e colecionando cartões postais. Afinal, o game conta com modo foto, o que permite tirar uma selfie da Ponte de Londres e demais atrações. Mas é claro que não temos uma Londres completa e se o amigo tentar visitar Abbey Road não conseguirá chegar lá, pois está fora dos limites do mapa do game. Um pecado.

Gameplay

Watch Dogs: Legion não difere dos demais jogos da Ubisoft no quesito de gameplay. Visão em terceira pessoa, uso de veículos, drones, roda de armas que são triviais nas produções do selo francês.

O que difere mesmo é a capacidade de interagir com eletrônicos de forma remota. Utilizar esses recursos podem ajudar a resolver tarefas quando falta poder de fogo ou força bruta. Além disso, algumas missões exigem que jogador se conecte com dispositivos em sequência. Esse tipo de tarefa é bem interessante.

O difícil mesmo é dirigir na mão inglesa. Ainda bem que o game não aplica multas de trânsito, pois toda hora se topa com um Routemaster (o tradicional ônibus de dois andares) ou um daqueles aristocráticos táxis pretos.

Palavra final

Watch Dog: Legions é um bom game. Quem não jogou os episódios anteriores não se sentirá perdido na história. Como foi dito, o título recorre a receitas conhecidas da Ubisoft, como o esmero nas reproduções de mapas, uma infinidade de tarefas paralelas e conceitos conhecidos de jogabilidade e gameplay. Se o amigo jogou The Division, Breakpoint ou algum episódio de Assassin’s Creed, não terá problemas para se adaptar ao jogo.

Apesar de o mapa de Londres não conter sua periferia, ele é mais que suficiente para espalhar incontáveis tarefas que fazem da produção um game imenso, que pode levar centenas de horas para ser concluído. O problema é que muitas missões se tornam repetitivas, o que pode fazer com que o jogador perca o interesse com o passar das horas.

Mesmo assim, o lance está em jogar com personagens sem habilidades especiais. Caras que não contam com armas de fogo e nem muitos recursos. Habilitar o modo de morte permanente também torna a campanha mais intensa.

Mas a graça do game está na mensagem sombria de um futuro próximo. Já estamos vivemos um momento em que perdemos controle de nossos dados pessoais. No game, personagens reclamam de terem sido expostos ou constrangidos. Apesar de ser um jogo, e que amplifica esse cenário de Big Brother orwelliano, não deixa de ser uma reflexão para onde estamos caminhando. Porém, mostra que não existem heróis, mas pessoas comuns determinadas.

Watch Dog: Legions tem versões para PC, PS4, PS5, Xbox One e Xbox Series com edições a partir de R$ 250.

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