Angrboda, Ellie e Hanna Delacroix

Compartilhe esse conteúdo
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

ANGRBODA

Marcelo Jabulas | @mjabulas – Humberto Eco, uma das mentes mais brilhantes do último século, escreveu que as redes sociais deram voz aos idiotas. De fato sim. Hoje todo mundo tem voz ativa para se expressar. E isso é fantástico. Todos devem ter voz (inclusive os idiotas). Mas não basta tê-la, é preciso saber usá-la. Muitas vezes o conforto do sofá e a distância física imbui o indivíduo de uma coragem para expressar racismo, machismo, homofobia e tantos outros ataques, que não cabem mais no mundo atual.

E a nova vítima do discurso de ódio é Angrboda, personagem criada para “God of War: Ragnarok”. A jovem negra deu as caras no mais recente vídeo do game, divulgado há uma semana do PlayStation Showcase.

Angrboda

A aparição de Angrboda deu início a um levante de postagens racistas nas redes sociais. Os produtores foram acusados de politizar o jogo e outras falácias furiosas. O diretor de narrativa do game, Matt Sophos saiu em defesa da personagem e conta que “God of War” é uma visão do time sobre mitologia. Ou seja, eles podem inserir o que quiserem, afinal a produção é deles.

 

E faz todo sentido. No game, Kratos passeia pelo mundo dando porrada em criaturas titânicas, mitológicas e todo tipo de aberração. Mas a galera pega no pé pelo fato de a personagem ser negra dentro do contexto da mitologia nórdica. Ou seja, não pode haver negros na Escandinávia. Só loiros dos olhos azuis. Mas um troll é de boa, tá liberado.

A personagem (que é uma criação binária) não sofrerá nenhum dos efeitos das agressões. Afinal ela é uma programação computacional. Mas ao atacar Angrboda, também se ataca todos os negros. Pode parecer mimimi, mas só que vive o preconceito sabe o quanto ele machuca.

Desculpas

A desculpa para velar o racismo e sexismo nos games é sempre o argumento da descaracterização dos fatos. No anúncio de “Battlefield V”, em 2018, os curadores de plantão espumaram de ódio pelo fato de o game conter uma personagem mulher, a francesa Hanna Delacroix. “Não existiam soldados mulheres na Segunda Guerra! Estão distorcendo a história”, bradaram os estudiosos do Google.

De fato, nas forças aliadas, a grande maioria das mulheres envolvidas na guerra estavam em fábricas de armamentos, hospitais e serviços burocráticos. Mas existiram soldados mulheres como a ucraniana Lyudmila Mikhailivna Pavlichenko, atiradora que inspirou a personagem Polina Petrova, de “Call of Duty: Vanguard”. Isso sem contar, que tiveram incontáveis mulheres que atuaram em guerrilhas contra a ofensiva do Eixo.

Elas

Ataques homofóbicos também pipocaram em torno de “The Last of Us: Part II”. A rapaziada ficou furiosa pelo fato de Ellie ser lésbica. A treta começou bem antes do lançamento do game, num dos trailers que mostra ela com sua companheira Dina. Era inconcebível a protagonista ser gay. Ela pode degolar, sufocar e balear, mas jamais gay. Por outro lado, ninguém se importou com a atlética performance erótica entre Abby e Owen, lá pelas tantas do jogo. Afinal, papai e mamãe no videogame é brincadeira inocente.

Bom, o que se vê é que os exemplos acima são pequenos pontos no atlas da intolerância. Intolerância que fere, mata e corrói, motivada pela incapacidade de aceitação. Mas notaram que nos três exemplos há sempre a mulher em destaque? Seja negra, lésbica ou soldado, há um viés machista.

Como disse, Angrboda, Ellie e Hanna nunca ouvirão as falácias. Mas outras mulheres sim. As gamers que são insultadas nas salas multiplayer, ou aquelas que precisam se passar por homens para conseguir jogar. As meninas streamers que são bombardeadas por ofensas apenas porque são mulheres.

Possivelmente há uma motivação freudiana para tal comportamento diante da figura feminina, que motiva essa galera a tanta agressão. Mas não serve de justificativa. Ao invés de atacá-las, o melhor é buscar uma solução no divã e entender que no mundo não mais espaço para isso. A diversidade está aí e precisa ser entendida e respeitada.

Deixe para descontar sua ignorância nos zumbis, trolls, medusas, demônios e soldados inimigos nos campos de batalhas dos games. Afinal, eles foram criados para isso.

Não seja idiota, saiba fazer bom uso da sua voz.


Compartilhe esse conteúdo
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.