Minha primeira vez foi em dupla

GAMECOIN DOUBLE DRAGON 2

Diego Ortiz

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Devem ter razão! O primeiro jogo que zerei na vida nunca mais me saiu da cabeça e até hoje, se fechar os olhos, posso me lembrar de tudo que senti no momento, inclusive a dor da topada na mesinha de telefone (sim, isso existia) que ficava no corredor quando saí correndo comemorando feito um gol do Vascão (sim, o Vasco também existia nessa época) pela casa.

O jogo era Double Dragon 2 – The Revenge, feito pela Acclaim/Technos para o NES, e ele era sensacional. Havia um avanço gigantesco, principalmente na jogabilidade e nas cores, em relação ao primeiro, e a variação de fases também era estimulante. Eu já havia terminado alguns jogos no Atari e no NES, ou chegado ao fim válido, já que alguns eram infinitos, só iam ficando mais difíceis ou continuavam para as fases inciais. No Double Dragon 2 foi a primeira vez que um chefe foi abatido por meu impiedoso controle. Me senti o máximo.

GAMECOIN DOUBLE DRAGON 2 C

Mas ele tinha um problema sério, comum aos jogos da época: ele não permitia que o progresso fosse salvo. Tinha continues e tal, mas não dava para continuar depois de onde parou. Aí que vinha a parte mais difícil, a de convencer Dona Cleuda, minha mãe, a aceitar que eu ficasse muitas horas na frente do aparelho tentando zerar um game. Já havia tentado isso com Ninja Gaiden, mas desisti, ele era difícil demais e não daria tempo. Double Dragon 2 era mesmo a única esperança de uma primeira vez.

Após choros e rangidos de dente, ficou estabelecido que eu só teria uma tarde para tentar isso, de um sábado, em que ela iria bater papo com uma amiga que viria de visita e eu teria a única TV colorida da casa só para mim. Era 1989 e a missão estava aceita. Me preparei como que para uma guerra. Peguei uma garrafa de água na geladeira e deixei do meu lado, uns amendoins do meu pai e me concentrei para o embate. Selecionei a dificuldade Warrior, que era a normal, e parti para a porrada com muitos jabs, ganchinhos, chutes giratórios, voadoras e joelhadas na cara seguidas de um estiloso arremesso.

A saga de Billy e Jimmy Lee não era das melhores neste episódio. Marian, a namorada de Billy, que já havia sido sequestrada pelos Shadow Warriors no primeiro DD, agora tinha sido assassinada e eles queriam a mais básica e pura vingança. Nada muito elaborado ou original, mas que funcionava muito bem para motivar uma criança de nove anos.

GAMECOIN DOUBLE DRAGON 2 B

Já na primiera fase, o chefe era uma mistura de Ciclope com o Juggernaut dos X-Men. Era fácil. Segundo chefe, um ninja roqueiro com um helicóptero, mais difícil um pouco, mas nada demais. Terceiro chefe, um Abobo mexicano, muito, mas muito fácil, nem devia contar. Quarta fase, um sub-chefe Arnold Schwarzenegger bronzeado atrapalhava bem, mas o chefe mesmo eram umas esteiras. Chato e criativo.

Quinta fase, a da floresta, e lá vem o Schwarzenegger bronzeado de novo em uma locomotiva juntos de muitos outros soldadinhos. Repetitivo, mas difícil. Seguimos em frente. Na próxima, a da Mansão do Terror, uma das mais bacanas da história dos games, na minha opinião. A dificuldade é absurda, exige muita concentração e todos os chefes se repetem. Morri incontáveis vezes até chegar na sala do tapete com os dragões e enfrentar o Billy mau. Muitas mortes mais e fim. Era a hora do último vilão.

Lembro de ter ido no banheiro lavar o rosto, me acalmar um pouco, secar as mãos suadas e voltar a para a luta derradeira. O chefe era um fortão de cabelo verde, meio acrobata, tão apelão quanto os de Devil May Cry, com um golpe giratório de braços insuportável. Demorei muito nesta fase até que a tela ficou preta e eu percebi que tinha vencido. Fiquei paralisado diante da historinha que passa a seguir, com a ressurreição de Marian.

GAMECOIN DOUBLE DRAGON 2 A

Após a topada fiquei olhando o resto dos créditos com a sensação do dever cumprido e com a minha mãe falando que não podia ficar gritando igual um louco quando ela tivesse visitas. Foi uma das poucas vezes que não liguei de tomar um esporro. Não naquele dia em que me tornei invencível com os irmãos Lee.

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